O mundo da África no mundo da bíblia - Por Padre Ivaldir Camaroti dos Reis, assessor da Pastoral Afro
Data: 19/11/2009
O mundo da África no mundo da bíblia*
O Egito é um país africano, terra do Nilo e das pirâmides, o mais antigo reino de que se tem registro e Israel, terra das origens da bíblia, teve sempre um olhar atento a este poderoso vizinho. Portanto, é possível dizermos que houve por muito tempo uma intensa comunicação entre Egito - África - e Israel.
Você se lembra que, por muito tempo, muitas nações cristãs, também, justificaram a escravidão do povo africano se utilizando do texto bíblico de Gênesis 9, 18ss: “Os filhos de Noé, que saíram da arca, foram estes: Sem, Cam e Jafét; e Cam é o pai de Canaã”[1]?
“Falando de maneira geral, os descendentes de Jafet (10,2-5) são todos os povos que podem ser chamados, num critério linguístico, indo-europeu, incluindo os da Ásia Menor e das ilhas mediterrâneas. Os descendentes de Cam (10, 6-20) são os referidos como raças hamíticas do Norte da África, incluindo o Egipto e a Etiópia. Incluía-se Canaã entre estes porque nessa altura estava, pelo menos nominalmente, sob a lei egípcia. Os descendentes de Sem (10, 21-31) são todos os povos semitas, com excepção dos cananeus. São eles os antepassados dos hebreus.”[2]
A maldição que recai sobre Cam, identificado como as nações dos povos africanos, os teria tornado inferiores justificando assim, a sua escravidão.
Você se lembra que Moisés foi iniciado em toda ciência egípcia- África-, e era poderoso em palavras e obras?[3]
Você se lembra que na África costumava-se associar certas ocupações e ofícios a clãs e tribos particulares que neles se aperfeiçoavam?
Encontramos na bíblia muitas passagens como esta:
“Lamec teve duas mulheres: uma chamava-se Ada, e o nome da outra era Cila. Ada deu à luz Jabal, que foi o pai de quantos habitavam em tendas e conduziam rebanhos. O nome do seu irmão era Jubal, que foi pai de quantos tocam cítara e flauta. Por seu lado, Cila deu à luz Tubal-Caim, pai daqueles que fabricavam todos os instrumentos de cobre e ferro.”[4]
Você se lembra que o salmo 149, 3 diz: “cantem ao som de harpas e tambores!” Ritmos e instrumentos não menos importantes que nos dias de hoje na África?
Você se lembra que Jesus, provavelmente viveu um tempo de sua infância na África?
“Depois de partirem, o anjo do Senhor pareceu em sonhos a José e disse-lhe: levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para matar”[5].
Você se lembra que Simão Cirineu, que ajudou Jesus a carregar a cruz era um africano, de Cirene (atualmente Trípoli, no país da Lybia, África)? E que ele tinha dois filhos, Alexandre e Rufo, íntimos de São Paulo? -“Saudai este eleito do Senhor e sua mãe, que é também minha”[6]
Você se lembra que a África teve os primeiros cristãos já no primeiro século, como nos conta o livro dos At 8, 26ss, quando narra o encontro de Felipe com um alto funcionário da rainha Candace da Etiópia, o eunuco, que era alguém que já sabia ler um texto como poucos, mentalmente?
Nas comemorações da Semana Nacional da Consciência Negra, é bom fazermos memórias de alguns destes fatos bíblicos, para que não esqueçamos que o livro mais importante para os cristãos possui em sua construção muitos aspectos da cultura africana. Portanto, resgatar esses dados e se dar conta deles, nos ajuda a perceber que a beleza e grandeza da humanidade está na sua capacidade de intercambiar experiências culturais e antropológicas.
Nosso querido Brasil é formado por uma miscigenação de culturas. É preciso, mais do que, identificá-las, reconhecê-las, para que possamos respeitá-las. Sem medo. Sem preconceito. Deixando que, as experiências mais profundas de cada cultura sobre Deus, não sejam motivações de guerras e separações, como há muito temos visto, mas se complementando e nos integrando espiritualmente. Nesse sentido, a bíblia é um livro fantástico, condensador dessas experiências todas.
*Padre Ivaldir Camaroti dos Reis
Assessor da Pastoral Afro – Arquidiocese de Maringá-PR
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