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Maringá, 19 de Dezembro de 2011

O que fica do que passou

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Tirante a amplitude da
circunferência abdominal, a dificuldade de subir ladeira, a urgência em
levantar à noite várias vezes, o esforço de fazer a memória pegar no tranco e a
facilidade de chorar até em comercial de detergente, não posso dizer que os
anos me pesem muito. Tempo houve em que tudo era mais fácil. Ainda assim, não me
queixo. Aborrecem-me saudosistas de olhos sempre fixos no passado.
 
Não sofro por não ter de volta o
que já foi. “Tudo tem seu tempo” (Ecl 3,1). Comento situações que vivi porque me
ensinaram alguma coisa. “O saber não ocupa lugar”, dizia o pai. Já ouvi que, se
alguém fala: “Tenho muita experiência”, o que quer dizer é: “Já fiz muita
burrada na vida”. Pode ser. Sem negar as tolices que cometi, entendo que a idade
também me forneceu lições determinantes de bem viver.
 
Exemplo: quem viveu meia dúzia de
décadas lembra como funcionavam as coisas em família. Pai e mãe davam ordens,
filhos obedeciam. Não se respeitava a individualidade dos filhos? Pais eram
dominadores? Havia casos, sim, não dá para esconder. Afinal poucos tinham
ouvido falar de psicologia. Ainda hoje, apesar do muito que progredimos,
quantos podem considerar-se verdadeiro pai ou mãe? Naquela época, então... Às
crianças não se davam chances de escolha.
 
Moradia, comida, vestuário,
calçado, brinquedo, tudo era decidido pelos pais. Roupa e sapato passavam de
filhos mais velhos para mais novos. Sem arrufo nem esperneio. Sequer em sonho
passava pela cabeça de um adulto que criança lhe questionasse uma decisão. Não
há como não reconhecer a melhora que conseguimos. Hoje, pais se empenham em
acertar na formação dos rebentos. Não se permitem domesticá-los. Nem agir como
ditadores.
 
Alguns, entretanto, talvez tenham
virado o fio. Na ânsia de evitar excesso de autoridade optaram por autoridade
nenhuma. O ambiente familiar virou do avesso. Antes era quartel, agora virou
zorra. Há famílias em que o leme de comando foi entregue a uma gracinha de três
anos. Nem fala direito, mas decide tudo. Os pais se julgam antenados. Sei. Esperem
mais dez anos para ver.      
 
Outro ponto: cedo aprendi que um
homem vale tanto quanto a sua palavra. As pessoas ponderavam bem o que iam
falar. Porque, uma vez proferida, palavra não tinha volta. Entrava em vigor com
a força de compromisso. Testemunha, assinatura, firma reconhecida, registro
público, para quê?
 
O importante tinha sido empenhado:
a palavra, que outra coisa não era senão o próprio ser da pessoa externado pela
sua voz. Que garantia maior exigir? Ninguém pulava para trás desdizendo afirmação
anteriormente feita. Por lucrativa que fosse a vantagem ou rendoso o interesse,
honra não se negociava. Ninguém punha em dúvida este aforismo: homem que se
vende, ainda que por um mísero centavo, sempre recebe mais do que vale. Bom
tempo, sem dúvida, em que, de olhos fechados, se confiava no que a pessoa dizia.
 
Quem sabe, por saudade ou anseio
pela volta desse tempo foi que Thiago de Mello escreveu, no Estatuto do Homem:
“Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. (...) O
homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”. Em termos de
recursos de comunicação hoje nos encontramos a anos-luz do passado. Ninguém há
que não aprecie as fantásticas invenções da técnica e da ciência. Bom seria se
o mesmo se verificasse também no respeito à verdade.
 
 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá
 

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